Across Notes

Cruzando a fronteira com Maia

EDIÇÃO 01 Outubro de 2026

Design, tecnologia e relações humanas

Da resposta
à ação.

Quando a IA começa a agir, o que precisa continuar visível e sob controle das pessoas?

Um percurso em três leituras ↓

Numa conversa recente com o time, uma pergunta me fez pensar em como compartilhar melhor o repertório que venho construindo.

Escolhi três leituras sobre delegação, acompanhamento e controle. Compartilho essas leituras para abrir novas perguntas sobre os produtos que estamos construindo.

Uma conversa em três movimentos.

O pedido é só o começo.

Imagine uma IA que encontra o voo, compara hotéis e monta seu roteiro. Até aqui, ela ajuda você a decidir. Se também puder fazer a reserva, a relação muda: já não basta avaliar a resposta.

É preciso entender o que foi feito, o que ainda depende de você e como mudar de ideia. Essa passagem abre um território fértil para o design. As três leituras desta edição ajudam a explorá-lo: o que queremos delegar, como acompanhar e quando intervir.

Escolher o que delegar

O WORKBank, de pesquisadores de Stanford, cruza o que trabalhadores desejam delegar com avaliações de especialistas sobre capacidades da IA. A diferença entre essas duas coisas importa: uma tarefa que pode ser automatizada não se torna automaticamente uma tarefa que alguém queira entregar por completo.

Às vezes queremos ajuda para pensar. Em outras situações, queremos que algo seja resolvido sem nossa presença. O contexto e as consequências mudam essa escolha.

Antes de perguntar quanto podemos automatizar, vale investigar que participação as pessoas querem preservar.

WORKBank · 2025; versão 3 em fevereiro de 2026. Comece pelo resumo, método e limites do recorte.

Entender o que acontece

Mesmo quando a decisão é delegar, o trabalho de design está apenas começando. Em Many Agents, Many Views, Luke Wroblewski explora formas de acompanhar agentes trabalhando em paralelo. Seus exemplos ajudam a perceber uma tensão: a conversa pode ser boa para fazer um pedido e insuficiente para acompanhar sua execução.

Volte à viagem. Uma sequência de mensagens pode narrar cada movimento e ainda deixar você sem entender o conjunto. Uma reserva já foi confirmada, outra opção espera sua escolha e o roteiro ainda pode mudar.

Entender essas diferenças pode ajudar mais do que receber uma mensagem sobre cada passo.

Many Agents, Many Views · Luke Wroblewski · 5 de outubro de 2026.

Poder mudar de ideia

E se a pessoa quiser mudar de ideia?

Researching Widgets, do AI Widgets Team, com edição de Dan Saffer, aproxima essa pergunta de decisões concretas sobre controle, reversibilidade e alcance das ações. Delegar precisa vir acompanhado de caminhos para interromper, corrigir e renegociar. Mas pedir aprovação para tudo pode devolver à pessoa o trabalho que a IA prometia assumir.

Talvez uma das escolhas mais importantes da próxima geração de produtos seja justamente essa: em que momentos a participação humana faz diferença e como torná-la possível sem transformá-la em vigilância permanente?

Researching Widgets · 9 de setembro de 2026. Leia os recortes “Controle e reversibilidade” (Control and Reversibility) e “Granularidade e alcance” (Granularity and Scope).

Pense em uma jornada que seu time está construindo. O que a pessoa pode delegar, como entende o que está acontecendo e como recupera o controle quando precisa?

As respostas começam a desenhar a relação que queremos ter com a tecnologia.

Leve para uma conversa de projeto

Escolha uma jornada.
Desenhe a relação, não só a tela.

Use as três leituras para explicitar o que hoje pode estar implícito na experiência.

  1. MandatoO que a pessoa permite que a IA faça? Onde essa autorização termina?
  2. Estado visívelO que precisa aparecer durante a execução para a pessoa acompanhar e decidir?
  3. RecuperaçãoComo interromper, corrigir ou retomar quando o resultado não é o esperado?

Para acompanhar, não para dar conta de tudo.

Seis fontes, seis funções.

Um repertório útil combina descoberta, prática e pesquisa. Estas fontes cumprem papéis diferentes; uma novidade, um relato e um estudo não têm o mesmo peso.

  • Descoberta e experimentaçãoBen’s Bites

    Novidades e experimentos para perceber cedo o que merece atenção. A demonstração é um começo, não uma prova de eficácia.

  • Novas formas de interaçãoLukeW

    Um olhar de praticante para interfaces, agentes e atenção. Use os exemplos como repertório para testar, não como solução pronta.

  • Prática e qualidade da experiênciaSmashing Magazine

    Design, acessibilidade e implementação. A transformação também passa pelos fundamentos que tornam um produto compreensível e utilizável.

  • Quem está construindoLatent Space

    Conversas e relatos do ecossistema de construtores de IA. Aproxima os mecanismos dos produtos, com o cuidado de distinguir prática, patrocínio e evidência.

  • Outro contextoChinAI

    Jeffrey Ding interpreta o ecossistema chinês e suas narrativas. Uma ponte para ampliar o radar, sem tratar China e Ásia como um único contexto.

  • Pesquisa e métodoStanford SALT Lab

    Estudos sobre linguagem, trabalho e colaboração humano–IA. Consulte métodos e limites: um laboratório é uma linha de investigação, não consenso.

Repertório para aprofundar, no seu ritmo.

Uma biblioteca de apoio.

Doze livros para ampliar esta conversa. Cada nota oferece uma provocação e um momento em que a leitura pode ajudar. As conexões com o trabalho e as perguntas são propostas desta curadoria. As notas se apoiam em apresentações editoriais, entrevistas, índices e trechos disponíveis e não pressupõem leitura integral dos livros. Os títulos levam às fontes de referência.

Se quiser começar por um momento concreto:

  • Para experimentar com mais critério, Cointeligência aproxima a IA da sua prática pessoal.
  • Para desenhar novas experiências, Sentient Design explora o que muda na interação.
  • Para mudar a organização, Rewired liga experimentação a processos, pessoas e responsabilidade.

São portas de entrada, não um caminho obrigatório. Os outros livros ampliam e tensionam essas escolhas.

  • Capa de The Systems Leader

    The Systems Leader

    Robert E. Siegel

    Inglês

    Você precisa entregar o trimestre e, ao mesmo tempo, mudar o negócio que paga esse trimestre. Siegel trata essa contradição como parte do trabalho de liderar, não como uma falha a eliminar.

    Sua proposta é reconhecer pressões simultâneas, como execução e inovação, firmeza e empatia, e enxergar como decisões em uma área repercutem nas demais. Vale abrir quando a transformação parece uma disputa em que alguém precisa perder para outro avançar. Quais tensões você precisa aprender a sustentar sem paralisar o time?

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  • Capa de Reset

    Reset

    Dan Heath

    Inglês

    Antes de pedir mais esforço a um time exausto, vale investigar por que o trabalho continua travando. Dan Heath propõe procurar pontos em que uma mudança concentrada altera desproporcionalmente o resultado, em vez de espalhar energia por tudo.

    Na amostra, o problema de entregas de um hospital muda de figura quando se observa o fluxo real, não apenas as reclamações. A leitura faz sentido quando há muita atividade e pouco avanço. Antes de automatizar o que já existe, vale descobrir qual obstáculo mantém o restante da operação preso.

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  • Capa de Expand

    Expand

    Christian Bason e Jens Martin Skibsted

    Inglês

    Um projeto pode atender muito bem ao usuário de hoje e ainda criar um problema para amanhã. Bason e Skibsted partem dos limites do design thinking para ampliar o horizonte de tempo e considerar quem será afetado pelas escolhas de hoje.

    Na conversa sobre o livro, questionam a distância entre a urgência de entregar e os efeitos que duram décadas, além de quem fica fora da definição de usuário. É uma leitura para quando o briefing parece pequeno demais para o impacto da solução. Para quem está redesenhando experiências com IA, essa ampliação do olhar ajuda a não confundir eficiência no presente com um futuro que vale construir.

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  • Capa de A Psicologia do Dinheiro

    A Psicologia do Dinheiro

    Dan Ariely e Jeff Kreisler

    Português · Edição vinculada: 2023

    O preço é um número; a decisão de pagar não é só uma conta. Ariely e Kreisler exploram como emoções e referências distorcem escolhas financeiras, inclusive por que podemos aceitar pagar caro agora porque já pagamos caro antes.

    Essa lente interessa tanto a quem quer entender os próprios impulsos quanto a quem desenha experiências de compra, crédito e pagamento. No design, isso permite olhar além da conversão: facilitar uma compra e ajudar alguém a compreender uma escolha não são a mesma coisa.

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  • Capa de Design Leadership Ignited

    Design Leadership Ignited

    Eric Quint, Gerda Gemser e Giulia Calabretta

    Inglês

    Talento de design não resolve sozinho uma organização que não sabe usar design. Quint, Gemser e Calabretta deslocam o olhar do projeto para as condições que tornam seu impacto possível: estratégia da função, estrutura, desenvolvimento do time e relação com o restante da empresa.

    O livro se apoia em entrevistas com lideranças de grandes organizações e assume que objetivos contraditórios fazem parte desse trabalho. Vale ler ao ampliar um time ou repensar seu papel na empresa. Quando boas entregas não mudam decisões, o próximo problema de design pode estar na organização, não no produto.

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  • Capa de Design for a Better World

    Design for a Better World

    Don Norman

    Inglês · Edição vinculada: paperback, 2024

    E se uma experiência excelente para o cliente produzir um resultado ruim para a sociedade? Don Norman amplia a responsabilidade do design: não basta facilitar a tarefa individual; é preciso considerar comunidades, ecossistemas e consequências de longo prazo.

    No trecho sobre design centrado na humanidade, ele defende enfrentar causas, observar interdependências e trabalhar com as comunidades, não apenas para elas. A leitura ganha força quando métricas de produto parecem insuficientes para decidir o que vale construir. Na IA, essa lente inclui na decisão pessoas que talvez nunca usem o produto, mas viverão com suas consequências.

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  • Capa de Making Futures Work

    Making Futures Work

    Phil Balagtas

    Inglês

    O plano de três anos da sua área descreve um futuro possível ou apenas prolonga o presente? Phil Balagtas conecta a observação de sinais de mudança à construção de cenários e, depois, às escolhas de estratégia. A contribuição é tirar a conversa sobre futuros do campo da inspiração e aproximá-la de decisões, responsáveis e critérios de acompanhamento.

    Vale abrir quando o time acompanha tendências, mas ainda não consegue explicar o que elas mudam em suas prioridades. O ganho está em perceber quais decisões de hoje mudam quando os cenários mudam. A exploração de futuros começa a produzir valor quando altera uma prioridade do presente.

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  • Capa de Designing Human-Centric AI Experiences

    Uma experiência com IA não termina quando a resposta aparece na tela. Ela também precisa funcionar quando a resposta falha, surpreende ou muda com o tempo. Akshay Kore coloca confiança, feedback e tratamento de erros no centro do projeto, aproximando designers de quem desenvolve os modelos.

    É uma leitura pertinente quando uma equipe precisa transformar capacidade técnica em uma experiência compreensível, e não apenas acrescentar um chatbot ao produto. Publicado em 2022, oferece fundamentos, não um catálogo das ferramentas mais recentes. Ajuda a revisar o que acontece depois do erro: como a pessoa percebe o problema, dá retorno e recupera o controle.

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  • Capa de The Alignment Problem

    The Alignment Problem

    Brian Christian

    Inglês · Edição americana, 2020

    Um sistema pode parecer eficiente e ainda tomar decisões que ninguém gostaria de defender. Brian Christian investiga a distância entre o comportamento aprendido pelas máquinas e os valores humanos que esperamos preservar, passando por vieses em seleção de pessoas e decisões com consequências reais.

    O interesse para uma liderança não está em decorar técnicas de IA, mas em reconhecer que dados, objetivos e critérios de sucesso carregam escolhas humanas. Vale a leitura antes de delegar decisões importantes a uma automação. O critério de sucesso também merece revisão: um resultado fácil de medir não representa, por si só, tudo o que queremos preservar.

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  • Capa de Sentient Design

    Sentient Design

    Josh Clark, com Veronika Kindred

    Inglês

    E se a próxima mudança de interface não fosse uma nova tela, mas uma experiência capaz de se reorganizar conforme a intenção da pessoa? Josh Clark e Veronika Kindred exploram a IA como matéria de projeto: interfaces que adaptam forma e comportamento, em vez de apenas responder dentro de uma caixa de conversa.

    O livro desloca a discussão de produzir design mais rápido para imaginar produtos diferentes, sem ignorar os riscos dessa liberdade. Faz sentido para quem define a próxima geração de experiências digitais. O desafio é separar adaptação útil de surpresa desnecessária: o que deveria mudar para ajudar, e o que precisa permanecer previsível?

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  • Capa de Rewired

    Rewired

    Eric Lamarre, Kate Smaje, Rob Levin, com Alex Singla e Alexander Sukharevsky

    Inglês · 2ª edição, revista e ampliada (2026)

    A empresa acumulou pilotos de IA, mas o trabalho continua organizado como antes? A segunda edição de Rewired propõe olhar para uma área inteira do negócio, e não somente para casos de uso isolados.

    O índice de 2026 incorpora agentes de IA, revisão de fluxos de trabalho e mudanças no modelo de talentos, junto de tecnologia, dados e adoção. É uma leitura para o momento em que a discussão precisa sair da demonstração e chegar à responsabilidade executiva pela transformação. A pergunta que ajuda a começar: qual processo merece ser redesenhado de ponta a ponta, e quem realmente tem autoridade para fazê-lo?

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  • Capa de Cointeligência

    Cointeligência

    Ethan Mollick

    Português

    Entre usar IA para tarefas pequenas e entregar a ela o próprio julgamento, existe um espaço de aprendizagem que vale explorar. Ethan Mollick propõe experimentar a tecnologia como parceira de trabalho, criatividade e educação, sem confundir respostas convincentes com respostas confiáveis.

    Na introdução, o entusiasmo dos primeiros testes convive com referências erradas e dúvidas sobre o futuro das profissões. A leitura interessa a quem quer desenvolver uma prática própria, além de colecionar comandos prontos. Uma forma de levar essa leitura ao trabalho é experimentar numa tarefa conhecida e comparar o que a IA ampliou, o que você precisou corrigir e o que ainda exige seu julgamento.

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